TRANSIÇÃO, A FASE INTERMEDIÁRIA ENTRE UM ESTADO DE COISAS E OUTRO…

… DEMONSTRANDO ASSIM, UM SINAL EXTRA-AGRADÁVEL DA PRIMAVERA SE INICIOU DE FATO.

Querido Diário, “minhazamiga” e “meuzamigo”, saudações!

Nesta manhã, quando xicoburi despertei pouco antes das seis horas, já estava um lindo clima de primavera. E então, além da caminhada quotidiana, xicoburi tive tempo suficiente também para sair mais à tarde para estocar e reabastecer minha geladeira vazia. E assim, dei mais uma caminhada cuidadosa até a feira, logo após a estrada de ferro. É como se o orgulho de xicoburi tivesse sofrido uma fratura séria, se não fosse completamente esmagado, quando dei um passo elástico para cima de uma pedra que se encontrava à espera de xicoburi… E no segundo seguinte despenquei de uma forma que era suave demais para o próprio gosto. Xicoburi não acho que quebrei ou ofendi nada, exceto o próprio orgulho e alguma dorzinha naquele momento. Por outro lado, fiquei com a sensação de ter sido completamente espancado, e na verdade levei mais de um minuto para me levantar. É bastante irônico que horas antes xicoburi tivesse “escalado” livremente um morrinho íngreme e com cobertura de gramíneas sem me machucar, somente para observar alguns cavalos e vacas tomando água numa espécie de tanque no chão mais abaixo 🙁

De qualquer forma, passei por uma vila onde um garotinho – digamos dez anos de idade, mais ou menos – estava varrendo o pavimento de uma casa, talvez a sua mesmo, para limpar as lascas de cascalho que o pedreiro havia espalhado durante a “limpeza” da obra.  O gurizinho tinha já trabalhado duro com sua piaçava, pois a calçada estava mais limpa do que nunca. Seu esforço exemplar fez de seu endereço uma exceção brilhante em uma rua empoeirada, onde os restos de tijolos, cacos de telhas enfim… E cascalhos sujos. Esse gurizinho trabalhador ficou olhando com algum orgulho para o fruto de seu trabalho, talvez imaginando o que ele faria em seguida, agora que havia alcançado a perfeição nesta superfície pública. Seus pais de certo devem sentir algum orgulho de ter uma cria tão laboriosa assim… 🙂

Da parte de xicoburi, não pude deixar de pensar em como um burocrata brasileiro e elitista puro reagiria a esse movimento. Uma criança de uns dez anos que fica ao lado de uma rua movimentada e escova o cascalho para que a poeira não se acumule. Isso não pode ser permitido sem supervisores ou equipamento de proteção adequado. No mínimo, ele deve ter um colete de advertência amarelo ou laranja e aparelho de respiração… Ou não! Bem, e se o gurizinho tirasse nota dez pela encrenca: “- TRABALHO INFANTIL!” o burocrata provavelmente gritaria e se jogaria no celular para ligar para o serviço social, dizendo: “tem uma criança sendo explorada, aqui próximo de casa… se trata de exploração infantil, venham urgente!”… ou quem sabe se apenas não dissesse nada e pensasse que se tratava de mais uma criança pobre tentando sobreviver entre as milhares existentes neste país…vá lá saber! L Xicoburi mesmo não tenho ideia se esse guri fez isso voluntariamente ou foi subornado por seus pais ou alguém mais idoso. Mas, xicoburi sei que quando está ventando no pátio da escola e as crianças estão brincando no cascalho, ou na areia, fica empoeirado, e isso sem a necessidade de proteção facial. Ao jogar, o pó é bom, mas quando alguém é pago para ficar no pó e ser útil, então é imediatamente abuso infantil.  Vá lá saber se xicoburi não estou pensando errado. 🙁

Mas não vamos cair nas dicas bem-intencionadas do burocrata da elite. Dê à criança uma proteção facial e um colete de aviso amarelo. E deixe-o varrer toda a calçada por cinco reais ou menos. Muitos dos proprietários que vivem nesta área são vaidosos e até contratam empresas profissionais de paisagismo para plantar arbustos (e, claro, eles têm cortadores de grama auto propelidos), e provavelmente ficariam incomodados com o fato de seus tocos de calçada parecerem cheios de ervas daninhas em comparação com o pouco assim menino limpou. Dez ou vinte reais por casa seria uma boa soma, e talvez uma contribuição bem-vinda para a mesada semanal. Se é que nas famílias carentes, a gurizada recebe alguma mesada o-) Se bem que no particular xicoburi acho que devemos incentivar as crianças a ganhar dinheiro. No tempo que xicoburi também era guri, muitas crianças ganhavam alguma graninha engraxando calçados pelas ruas da cidade… Eles são peculiares e podem fazê-lo das maneiras mais inesperadas, provavelmente onde há falta de fornecedores estabelecidos. Diz-se que o atendimento domiciliar não tem tempo para fazer compras, cozinhar, limpar e conviver com os idosos. Então, por que não deixar as crianças comprarem a comida e levar para casa para os idosos por uma pequena recompensa? Ou deixá-los lidar com a socialização? Livre de impostos – e sem atitudes super-protetoras.    😉

Nossos políticos deveriam promover mais e mais as escolas profissionais.  Por que não usar a energia que se acumula nas crianças e nos jovens, não menores dos dezesseis anos? Com essa idade elas já têm o direito de votar.  Existe alguma maneira melhor de aprender decência e ordem do que recebendo um dever na forma de uma tarefa de trabalho remunerado? Sim, acho que é natural que eles sejam pagos pelo problema. Não se trata de mimá-los, mas de conscientizá-los de que o trabalho deve trazer pagamento. Quando o trabalho é recompensado, a gurizada vai querer trabalhar, e é o trabalho que cria riqueza.    😀